Hamilton – Quem Vive

1035x694-hamiltonbway0050r-lin-manuel-miranda-and-the-cast-of-hamilton

A História está de olho nos nossos legados.

Seria isso isso o suficiente?

Se você abriu esse texto existem grandes chances de você já saber o que é Hamilton. Se não for o caso, aqui vai um breve resumo:

Hamilton é um musical escrito, composto e com seu personagem principal interpretado por Lin-Manuel Miranda, figura americana de descendência latina que já tinha certo renome na Broadway pelos seus musicais anteriores 21 Chump Street e, principalmente, In The Heights (que ganhou vários prêmios de melhor musical e experimentou uma pontinha do fenômeno que Hamilton iria se tornar). A peça conta a vida do Pai Fundador dos Estados Unidos Alexander Hamilton numa amálgama que flerta com R&B, Britpop, Jazz, Country, Rock mas que tem toda uma essência no que chamarei de hip-hop sinfônico.

E não, quando falo “musical”, não quero dizer filme, e no caso de Hamilton, não é uma famigerada história que tem uma narrativa que “para e as pessoas começam a cantar”. É uma peça de teatro divida em 2 atos que, somados, dão 2 horas e meia de espetáculo, e praticamente contado apenas com música.

No nicho que estou mais acostumado, do “metal” e do “rock”, muita gente tem dificuldade em assimilar isso, mas é como se fosse algum álbum do Avantasia ou de Ayreon passado pros palcos, com coreografia e tudo (coisa essa que inclusive o próprio Ayreon fez recentemente com o álbum The Human Equation, mas isso é papo pra outro dia).

press_photo_01-1024x670

Cena de The Theatre Equation, adaptação para os palcos de The Human Equation (do Ayreon) com James LaBrie (do Dream Theater) como protagonista.

Uma das segundas estranhezas que as pessoas geralmente tem quando entram em contato com Hamilton (já que as primeiras envolvem o “pera, é um musical? Com gente dançando e tudo?”) é sua musicalidade.

O fato desses temas tão antagônicos estarem juntos – isto é, uma biografia histórica que tem como pano de fundo a Independência dos Estados Unidos e seus primeiros anos como país unido ao hip-hop – realmente é algo de se espantar ao primeiro contato.

A primeira reação tende a ser o escárnio – ora, algo historicamente relacionado à primariamente homens brancos sendo contado com algo culturalmente moderno relacionado à primariamente homens negros? Só pode ser uma piada.

Inclusive, em um show que Lin-Manuel fez na Casa Branca muito antes de Hamilton acontecer como um musical, quando a ideia era apenas um álbum conceitual, ao apresentar a ideia como “uma música sobre alguém extremamente ligado ao hip hop, Secretário do Tesouro Alexander Hamilton”, todos no lugar riram, como você pode ver logo no início do vídeo abaixo (a partir dos 15 segundos do vídeo).

Evidente que o próprio Lin sabe o quão absurda a ideia parece inicialmente, e se juntar ao fato de que as obras dele sempre tem um forte senso de humor, olhando de fora o hip-hop de Hamilton parece apenas uma piada para tornar o show um pouco mais cômico.

Não é o caso.

Lógico, Hamilton tem seus vários momentos de humor, com inclusive várias piadas estarem de algum modo relacionadas ao rap que algum personagem possa estar fazendo, mas o objetivo do musical não é que você dê risada do absurdo que a ideia parece.

O rap é um personagem na história. Um personagem completamente ligado à revolução, que cresce junto com a história e com os outros personagens.

Além de que o rap é algo relativamente novo na Broadway. Lógico que Hamilton não é o primeiro; o próprio In The Heights, citado acima, apresenta uma musicalidade conceitualmente semelhante, mas com o hip-hop sendo misturado com ritmos latinos. Mas por ser esse estouro, é como se Hamilton estivesse oficialmente integrando o hip-hop como um gênero da Broadway. Algo parecido com o que Rent fez nos anos 90, pra quem entende um pouquinho da história dos musicais. É aquela coisa de que o que marca não é exatamente o primeiro, e sim o primeiro a conseguir estourar comercialmente.

E a terceira coisa que mais causa estranheza à alguém de fora é: por que diabos um musical sobre um americano aleatório está fazendo tanto sucesso?

Hamilton está revolucionando. E essa frase tem tanto sentido na história contada quanto fora dela, aqui, para nós.

Nunca um musical exclusivo da Broadway (ou seja, sem filme) estourou tanto assim. Com o álbum contendo as músicas estourando nas paradas dos Estados Unidos, com tanta gente de fora do país se importando em ir atrás dos personagens históricos ou de mais musicais, com inclusive referências à peça em histórias em quadrinhos!

sem-titulo

Cena de Deadpool V Gambit #1 (inclusive com os brasileiros Danilo Beyruth e Cris Peter na arte)

Os motivos do sucesso da peça não cabem a mim definir. Vão desde a fama prévia de Lin por In The Heights até a escolha de um cast totalmente diversificado para papéis de pessoas originalmente brancas na peça (com apenas 2 atores realmente brancos, e não negros, mulatos ou latinos fazendo papéis principais – no caso, Philipa Soo como Elizabeth Schuyler e Jonathan Groff como Rei George III). Mas é engraçado olhar todos esses fatores citados e reparar o quanto vários poderiam contar contra o sucesso da obra.

Um desses fatores é o que chamarei da “temática aparente” da peça. Se você é uma das pessoas que ainda não ouviu ao musical (detalhe para o ainda), ao ler até aqui pode pensar que ainda assim não tem tanta graça para, ao menos nós, brasileiros, irmos atrás de uma peça sobre um homem americano que não é famoso nem pra eles relacionado à detalhes da História americana.

A questão é que, contrariando o que parece ser, Hamilton não é sobre a História dos Estados Unidos independente. Não é sobre a Revolução. Não é sobre as guerras, sobre os papéis federalistas…

Hamilton é sobre Alexander Hamilton, Aaron Burr e Elizabeth Schuyler. E, numa instância ainda mais principal, sobre legado. E o quanto o ponto de vista desses 3 personagens sobre o conceito por trás dessa palavra os levará até um clímax quase agridoce, reflexivo e emocionante.

Lógico que Alexander Hamilton tem mais foco que os demais. Tudo é sobre ele, sobre o ponto de vista dele; mas é curioso como esse próprio conceito é subvertido na narrativa da peça.

Lin-Manuel conta em entrevistas que, em 2008, quando estava de férias após algumas apresentações do In The Heights, pegou para ler a biografia de Hamilton e a devorou em poucos dias.

E sabe quando você ouve a história de uma pessoa e pensa “uau, isso daria uma bela obra”? Então, Lin-Manuel pensou exatamente a mesma coisa.

Em entrevistas, Lin diz que acha difícil fazer música se não for pra contar uma história. Sendo um contador de histórias nato, ele viu naquelas aproximadamente 900 páginas que a vida desse homem é algo que todos deveriam ter contato, e então começou o processo de passar tudo aquilo para 2 horas e meia de modo que a história fosse contado principalmente através das músicas (e, no palco, com maiores detalhes através da coreografia), isto é, sem precisar que a narrativa se torne falas.

635961097208050759-679983107_download202

E o que diabos tem de tão interessante na vida do homem que estampa a nota de 10 dólares que não tenha na vida de qualquer outro Pai Fundador?

Alexander Hamilton era um louco, apaixonado, que faria de tudo para construir seu próprio legado. Sua história naturalmente já tem um ar épico se pegarmos para analisar fatos como por exemplo seu maior amigo ter sido George Washington,  ele ter um papel crucial na vitória contra a Inglaterra na batalha armada pela independência, o clímax de sua vida envolver um duelo de armas com o Vice-Presidente da época Aaron Burr… Mas esses pontos-chave são só a ponta do iceberg.

Alexader tinha um intelecto quase imperativo que parecia ser muito a frente de sua época. Até o momento em que entrou em contato com seus primeiros amigos durante o processo de Revolução, ele só tinha sofrido na vida, como os primeiros versos da primeira faixa do musical nos contam. Mas seu intelecto e seu desejo de ser lembrado o fizeram ir além do que poderia estar reservado à ele.

Lembram quando eu disse sobre o rap ser um personagem?

Temos em Alexander uma voz forte da revolução que influencia à todos os seus amigos. Numa das primeiras músicas, quando ele conhece seus primeiros amigos John Laurens, Marquis de Lafayette Hercules Mulligan, eles estão fazendo rimas simples, iniciantes, como se fosse aquele hip hop básico que tínhamos nos anos 80, até Alexander chegar com suas rimas super complexas e difíceis, como uma simbologia para o próprio discurso revolucionista de Alexander que acabou servindo como inspiração à seus amigos. Por exemplo, Marquis de Lafayette, nas primeiras músicas em que aparece, mal fala inglês direito, fazendo rimas com o francês. Porém, mais pra frente, perto do fim do Ato 1, após toda sua convivência com Alexander, o marquês tem uma música em que faz um rap complexíssimo em inglês que, de tão rápido, tem o título de música mais rápida da Broadway (cadencialmente falando), com um momento em específico em que 19 palavras são cantadas em 3 segundos. Inclusive, Hamilton em si é o musical mais rápido da Broadway, com 20.000 palavras ao longo de suas 2 horas e meia.

Engraçado que, mesmo sendo um número rápido para a Broadway, para o próprio ator, rapper e cantor que interpreta o personagem não é tão rápido, tendo músicas de sua banda própria ainda mais rápidas, como podemos ver no vídeo abaixo.

Após essa “introdução” sobre o que o musical representa para o mundo (e olha que nem falei tudo o que poderia falar, deixarei alguns materiais para quem se interessar mais no fim do post), preciso dizer algumas palavras sobre o que Hamilton representa para mim.

Eu nunca tinha ouvido nenhum musical que não tivesse filme. Nunca me interessei muito por essa área exceto pelos já citados Avantasia e Ayreon (dentre outros), que nem se encaixam nisso.

Então, tive contato com a primeira música da obra, a quase auto-intitulada Alexander Hamilton, e me apaixonei.

Já ouvi ela sabendo o quanto a peça estava fazendo sucesso lá fora e, consequentemente e em uma escala muito menor, aqui também, então fiquei curioso. Decidi tornar Hamilton minha porta de entrada nesse mundo da Broadway.

Existem 2 Atos bem definidos em Hamilton: o primeiro, que usa como plano de fundo as guerras da revolução e conta do nascimento de Alexander até ele se tornar Secretário do Tesouro, e o segundo, que usa como plano de fundo os primeiros anos dos Estados Unidos como país independente e todas as crises e problemas pessoais que Alexander viveu até o dia de seu fatídico duelo.

Primeiramente eu havia me interessado mais no primeiro ato, e, de certo modo, ter achado o segundo bem qualquer coisa. Talvez pela musicalidade, já que meu gosto é muito mais condizente com a sonoridade mais “pesada” e dinâmica do primeiro ato do que a sonoridade, digamos, “amarga” e até “cínica” do segundo ato. Mas aos poucos fui me tocando o quanto essa opinião estava interligada à história.

O primeiro ato envolve as grandes glórias da vida de Alexander. Seu casamento, o nascimento de seu filho, suas amizades, as batalhas da guerra. O segundo é quase que completamente permeado por tragédias. Alexander em certo momento se encontra completamente sozinho. Está sem seus amigos, sem Washington (que interpreto como um grande pai adotivo de Alexander), conseguiu perder a esposa depois de traí-la e esse fato vir a público, seu primogênito morre por sua causa e junto à Aaron Burr temos Thomas Jefferson e James Madison antagonizando o protagonista.

Mesmo tendo consideravelmente mais momentos de humor do que o Ato 1, o Ato 2 é “pesado”. Não no som, como o primeiro, mas sim na atmosfera. A todo momento é como se alguma bomba estivesse prestes a explodir. E quando chegamos ao final, em que temos o grande clímax, fica difícil reouvir essas músicas depois. Não por elas serem ruins, mas todo o sentimento que você construiu acompanhando a história volta e te atinge como se fosse a primeira vez que você estivesse ouvindo as palavras.

Afinal, esse pra mim se tornou o grande diferencial da história contada por músicas. São músicas separadas (e no caso de Hamilton especificamente, muitas músicas, 46 no total), todas excelentes, e que você pode reouvir quando quiser. É como se você toda hora fosse rever alguma cena que você gosta de algum filme, mas de maneira muito mais simples. E exatamente por essa simplicidade, o porém da mensagem que a música carrega se torna tão forte.

No fim das contas, os 2 Atos são simplesmente excelentes. O primeiro mais direto, dinâmico, épico; o segundo mais discreto, cínico, irônico. Ambos emocionantes.

25hamilton-master1050

Em Hamilton, Lin reusa alguns temas essenciais de In The Heights com ainda mais peso em Hamilton.

Temos o protagonista imigrante (coincidentemente também nascido no Caribe, como Usnavi, de In The Heights) querendo construir seu legado.

Apesar da imigração não ser um tema tão recorrente na obra como é em In The Heights, existem alguns momentos chaves que tocam no assunto que mostram o quanto a ideia está dentro da história daquele país.

Os Estados Unidos foram construídos por mãos imigrantes. Alexander e Marquis de Lafayette, dois homens que só foram aos Estados Unidos após a adolescência, tiveram papéis cruciais na Revolução (inclusive, parando pra reparar, o do Marquis tenha sido até mais importante que o de Alexander). Em seu monólogo final na penúltima música da peça, The World Was Wide Enough, Alexander diz o quanto o país em que ele vive se tornou uma terra em que imigrantes podem deixar sua marca. E que mensagem melhor do que nessa num momento em que o país deles pode estar prestes a ter como Presidente um homem assumido como anti-imigrantes? Mesmo sendo uma peça histórica, há uma preocupação que percorre em todas as músicas da mensagem ser atual. E funciona.

Pois o que é mais atual do que querermos saber nosso papel no mundo?

Quando terminei Hamilton pela primeira vez, inicialmente pensei que essa preocupação toda com legado é algo muito mesquinho para passar como mensagem. Mas, com o tempo, pensei no contrário: oras, eu, assim como todo mundo, não quero construir um legado?

Você pode dizer que só quer se formar, ter seu emprego, seu dinheiro e viver sua vida sem grandes pretensões. Mas não existe uma preocupação no fundo de cada um de nós de como seremos lembrados quando morrermos? Será que seremos os anjos que só serão lembrados pelas coisas boas?

O mais irônico, e até de certo modo triste de todo esse conceito é que Alexander Hamilton viveu sua vida toda em busca de construir um legado mas não o conseguiu. Se não fosse o estouro de Hamilton lá na Broadway, provavelmente Alexander sairia da nota de dez dólares, tópico esse que estava em discussão antes do musical estrear. Seu real único legado, sumiria.

Então será que realmente vale a pena viver preocupado com o próprio legado? Preocupado com construir um?

As duas forças que movem a história de Hamilton são o protagonista e Aaron Burr. Os dois estão ali desde o começo e continuam até o final, sempre em conflito, inicialmente “amigável”, e terminando num duelo que tira a vida de Alexander (spoiler esse contado de maneira genial logo na primeira música da obra).

Hamilton quer ter um legado. Burr quer manter o seu. Alexanderon morre, mas fica como o herói; Burr sobrevive, mas fica como o vilão.

Uma série de escolhas erradas levou os 2 à esse conflito. Mas o musical em nenhum momento trata um dos dois exclusivamente como herói ou como vilão. Aliás, pelo contrário; em vários momentos nos identificamos muito mais com o que Burr está passando do que com o que Alexander vive. Burr somos nós, a pessoa comum, que secretamente deseja alcançar mais longe, mas que é podre de rico; Alexander é inteligente, fora do comum, que não tem medo de nada, mas que é pobre e sofre de problemas de relacionamento como todos nós. Essa desconstrução de quem é o mocinho e quem é o bandido nos faz em vários momentos torcer pelos dois, até que chega a penúltima música, em que temos o duelo, e não sabemos o que sentir. Ódio, mas um compadecimento por Burr; pena, mas um ódio do orgulho de Alexander. Dois homens que ficaram cegos por seus legados, o que acabou os levando, de um jeito ou de outro, a acabar com suas próprias vidas.

E, no meio de tudo isso, temos Elizabeth Schuyler. A esposa de Alexander, que começa completamente desamparada de tanto amor por ele, que só quer a companhia dele, e que termina sozinha, mas ela mesma construindo o legado que seu marido levou a vida para tentar ter.

Nossos legados não são contados por nós. É outra pessoa quem conta sua história. Como a última música diz, Who Lives, Who Dies, Who Tells Your Story.

Por conta de toda essa temática, no fim das contas, Eliza é a verdadeira protagonista da história. Ela quem começa não querendo aparecer nos holofotes, mas quem termina nos dizendo sobre legados, sobre futuro, sobre o tempo.

E, meu amigo, é nessa hora que todos choramos.

Hamilton não é perfeito. Deixa o final em aberto para alguns personagens, tem alguns ápices que acabam apagando momentos mais importantes…

Mas sua história é tão rica em mensagem e temática que, mesmo sendo algo que pareça sem atrativos nenhum para eu e você, consegue prender, emocionar, e te fazer refletir.

Lógico que além dos 3 citados a peça tem vários personagens, a grande maioria incríveis, e todos importantes pra trama de algum modo. A sensacional Angelica Schuyler (dona de uma das melhores músicas do musical), o incrível George Washington, e 8 personagens interpretados por 3 atores e 1 atriz que, principalmente no caso dos atores, carrega uma rima temática excepcional no que os personagens representam na vida de Hamilton.

Aliás, fica aqui o podcast do Jogabilidade sobre o Ato 1 de Hamilton, em que eles comentam faixa por faixa, que você pode conferir clicando aqui.

Enfim, por hoje é isso. Se você leu até aqui e não se interessou em ir atrás de Hamilton, devo ter falhado feio na mensagem.

Mas a realidade é que ainda dá pra passar horas e horas falando sobre essa obra. Ainda há muito a ser dito.

Até mais!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s