Reino do Amanhã – O embate ideológico como deve ser feito

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Dedicado a Cristopher Reeve, por nos fazer acreditar que um homem pode voar.

“Temos a obrigação de entender as consequências de todas as coisas que fazemos, e escolher fazê-las – ou não – com nossos olhos bem abertos. É disso que Reino do Amanhã trata.” – Elliot S. Maggin, na introdução da Edição Definitiva de Reino do Amanhã.

Por mais que a vida, julgando de um ponto de vista bem simplificado, possa ser vista como uma sequência ininterrupta de ações e reações (não necessariamente seguidas e/ou interligadas) na prática, é a teoria que separa o modo de ver a vida de cada um.

Tanto é que você pode discordar disso que acabei de afirmar.

Na verdade, nem eu posso dizer que concordo.

Chamarei esse “modo teórico de enxergar a vida” de ideologia. Que, de acordo com Destutt de Tracy (um filósofo francês), é a ciência que atribui a origem das ideias humanas às percepções sensoriais do mundo externo. E que, aqui, será mais especificamente a origem das ideias humanas relacionadas à suas próprias vidas, individualidades e coisas do gênero.

Aliás, o “humanas” aqui se refere à qualquer ser capaz de pensar racionalmente nos seus atos. Afinal, isto é uma análise de uma história de super-heróis. Seres com super poderes. Seres que, teoricamente, não são humanos. Mas na prática, são tanto quanto quaisquer outros.

E por que estou escrevendo tudo isso na introdução de uma análise de um quadrinho de super-heróis? Bem, é óbvio. Porque, não apenas é disso que Reino do Amanhã trata como o tratamento diferenciado que é dado acaba sendo um dos grandes diferenciais dessa história.

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Para fechar (com atraso) os reviews da DC que eu estava planejando para a estreia de Batman Vs Superman, trago aqui talvez a antítese de tudo aquilo que o filme nos trouxe.

Se você é um passageiro de primeira viagem, Reino do Amanhã (Kingdom Come, no original), é uma minissérie feita em 4 edições no ano de 1996 escrita por Mark Waid e desenhada por Alex Ross.

A versão analisada aqui  é a Edição Definitiva lançada pela Panini, com uma tonelada de extras, perguntas respondidas por Mark Waid, sketchs do Alex Ross, um guia com todas as referências e tudo mais o que você imaginar.

Publicada como um conto no Elseworlds da editora, isso é, uma história em um “universo paralelo”, que não faz parte da continuidade normal da editora, Reino do Amanhã traz um conto passado num futuro próximo que narra o embate entre uma nova geração de super-heróis, vigilantes e imorais, contra os super-heróis “tradicionais”, vistos como medalhões por uns e ultrapassados por outros, desconstruindo ambos os lados.

Afinal, os medalhões do passado são mesmo símbolos perfeitos? A escola nova que eles tanto querem controlar, afinal, não se baseou neles?

É um mundo que no começo da história está completamente caótico. Devido à um ocorrido no passado, o Superman se exilou já fazem 10 anos. E como o maior herói que já existiu sumiu, grande parte de seus companheiros foram abandonando o barco também; uns, simplesmente se aposentaram, enquanto outros alcançaram um nível de estagnação em seu super poder ou dever num ponto em que não ligam pra mais nada. Tudo isso enquanto uma quantidade gigantesca de novos seres super poderosos surge, e sem a moral de antes para seguir, acabam perdendo a razão.

Isso até certo atentado ocorrer e convencer Superman à voltar a ativa.

E aí, meu amigo, é a volta dos Titãs à terra. Prontos para trazer de volta a “verdade” e “justiça” de outrora.

Mas infelizmente, as coisas não são tão perfeitas assim.

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Em quesito de história, Reino do Amanhã beira à perfeição. Não só pelo enredo, mas pela temática.

Mas sinceramente, falar bem da história é um tanto quanto chover no molhado. Vou tentar me focar na temática da história, e, nos próximos parágrafos, nos poucos pontos ruins de seu enredo.

Como disse anteriormente, o roteiro de Mark Waid beira à perfeição, mas não chega a alcançá-la. E por que digo isso?

Acredito que um dos principais pontos fortes que uma história fechada, ainda mais curta desse jeito, pode ter, é o de usar o lore do Universo (no caso dos Universos Marvel e DC) para contar uma história contida, com início, meio e fim, sem as famosas e mal vistas mega sagas que assolam os quadrinhos. O que, aliás, é o caso.

Com o gigantesco universo, cheio de detalhes que tem em mãos, Mark Waid e Alex Ross conseguem usá-lo magistralmente. Porém, é em poucos detalhes que os poucos defeitos se encontram.

Muita gente de fora do nicho dos “quadrinhos mainstream americanos” usam como contra-argumentos à eles o fato de seu extenso e inacabável universo não ser um atrativo para novos leitores. Histórias como Reino do Amanhã servem tanto como porta de entrada para alguns como um grande “prêmio” para os outros que estão há anos imersos nesse universo.

O que disse acima, “histórias COMO Reino do Amanhã”, explicita que não necessariamente Reino do Amanhã seja uma boa porta de entrada. Na verdade, acho que é justamente o contrário.

Eu não sou um especialista em roteiros para apontar objetivamente falhas em Reino do Amanhã, então isso que estou dizendo é totalmente subjetivo. Afinal, é uma análise minha. Mas, como Reino do Amanhã foi uma das primeiras histórias que eu propriamente li, há cerca de 2 anos de maneira ilegal (essa lida na Edição Definitiva foi uma releitura, com uma carga de conhecimento do Universo muito maior) o fato de trabalhar com um universo tão rico e com tantas referências me fez ficar perdido em alguns momentos.

Digo, se fossem apenas pano de fundo, estaria tudo lindo e maravilhoso. Mas em alguns (poucos) momentos isso ganha certo destaque, que para quem não conhece o que está sendo tratado ali, não há sentido.

Por exemplo, quando Superman vai encontrar Orion e, logo em seguida, entra em contato com o mestre do escape que constrói a prisão. O que temos nessa sequência de páginas são referências jogadas que, a não ser que você conhece a fundo aqueles personagens, não entenderá o peso dramático que está envolvido em cada palavra jogada. Mas não negarei que a narrativa é bem construída o suficiente para que a mensagem seja absorvida, apesar de não completamente entendida.

Ou, ainda, na cena introdutória da Legião de Lex, cheia de personagens que não estão no imaginário popular como os protagonistas estão mas que tem um tratamento igual a todos, o que é bom de um lado mas ruim por outro.

Agora, tem um pequeno detalhe que passa despercebido, e que pode ser apenas um nitpicking meu, mas que não consegui deixar de reparar.

Temos o Capitão Marvel, ou Shazam, chame como preferir, como um dos personagens centrais na história. Principalmente na metade final, sua importância é equiparada (em certo ponto superada) à da trindade da DC.

Ok, temos um humano com os poderes de Shazam sendo um dos focos. Mas e o resto da família Marvel que aparece como figurante? Seria só um easter egg sem significado além do fan service? Ou, no caso, aqueles personagens não tem os mesmos poderes ou o mesmo conceito do Capitão? Se é assim, como eu saberia, já que não é citado?

Mas calma, calma. Eu amo essa história. E agora falarei o por quê.

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Se você já foi criança um dia, você já teve um herói.

Homem-Aranha. Superman. Batman. Slash. Jimmy Page. Seu pai. Jesus Cristo.

Não importa.

Mas já deve ter tido aquele ser humano que lhe foi uma luz. Um ídolo. Um símbolo de perfeição. Alguém que você quis seguir os passos dentro do possível e, em certos aspectos, por que não, do impossível.

Reparou no que eu chamei o seu herói? De ser humano. Ainda mais no nosso mundo.

Em que não existe ser humano perfeito.

E Reino do Amanhã se passa, dentro do possível, no nosso mundo.

Superman, Batman, Mulher Maravilha, Magog, Lanterna Verde, Oliver Queen. São todos seres humanos. E suas falhas, magistralmente mostradas, é o que torna seus atributos ainda mais maravilhosos.

Nenhum ser humano é uma ilha ao mesmo tempo em que todo ser humano é um mapa tão complexo que ninguém consegue ler. Mesmo sendo deuses tão poderosos que não devem nada a ninguém, os personagens aqui apresentados não devem ficar sozinhos, ao mesmo tempo em que apresentam angústias e problemas que não conseguem solucionar. Como eu e você.

Deuses, super poderosos, sim. Mas, acima de tudo, humanos. Acima de seus super poderes, de seus milhões de dólares, de suas armaduras, estão dúvidas, angústias e questionamentos.

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E é interessante o quanto certas características únicas foram dadas para os personagens.

Temos um Superman mais rancoroso. Um Batman mais sarcástico, bem-humorado, que sorri. Um Flash que ultrapassou os limites da humanidade. E por aí vai.

Aliás, por mais que tenham páginas e mais páginas carregadas de milhares de heróis que à primeira vista parecem apenas figurantes, todos, absolutamente TODOS foram pensados. O bom da Edição Definitiva da Panini é poder ver isso com mais clareza nas notas de Mark Waid e de Alex Ross.

Aliás, Alex Ross. Preciso mesmo comentar das pinturas que esse homem faz? Acredito que as imagens que coloquei já sejam um belo exemplo.

No fim das contas, é bom em tempos de Batman Vs Superman reler uma história como essa para lembrar os temas que realmente importam.

Para lembrar o que é realmente ser herói.

 

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5 comentários sobre “Reino do Amanhã – O embate ideológico como deve ser feito

  1. Eu tinha um amigo (bom, ainda tenho, apenas não mantemos mais tanto contato quanto antes) que colecionava DC. Ele tinha centenas de revistinhas da Abril (isso que estou contando foi poucos anos antes da Panini adquirir os direitos dos heróis) e seu super-herói favorito, de longe, era o Superman. Claro que ele tinha O Reino do Amanhã, uma edição da Abril ainda. Eu não era colecionador mas conhecia algumas coisas, poucas, muito do que eu conhecia e muito do que conheço até hoje foi lendo os gibis dele. E eu li O Reino do Amanhã, e acho que foi a primeira história em quadrinhos que realmente me emocionou.

    Eu já tinha lido bastante coisa (tudo na casa dele), Watchmen (que é incrível também, mas de uma forma bastante pessimista), Invasão (uma mega-saga típica da Era de Prata, admito que eu gosto dessas…), A Crise nas Infinitas Terras (a melhor mega-saga que já li, até hoje; mas admito que não li muitas, hehe), e eu havia gostado de todas, gostado muito sem dúvida, mas nenhuma havia me emocionado.

    E acho que vale comentar que meu amigo não era fã do Batman, então ele não tinha A Piada Mortal, que eu só leria muitos anos depois. O Cavaleiro das Trevas ele tinha, mas eu li depois também, e é muito bom, me emocionou também, mas ainda prefiro O Reino do Amanhã, ainda que no geral eu prefira, como personagem, o Batman.

    Curtido por 1 pessoa

    • Te falar que até hoje não li nem Invasão e nem Crise nas Infinitas Terras.

      Mas pois é, Reino do Amanhã tem esse fator “emocionante” que pesa muito positivamente à favor da história.

      Apesar de que talvez eu acho que eu tenha me emocionado um pouco mais com Cavaleiro das Trevas, não sei. Precisaria reler.
      Mas obrigado pelo comentário ^^

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  2. Pingback: Doctor Who – The Return of Doctor Mysterio | Chat Supremo

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