As implicações de uma “narrativa profunda” e como o público a absorve

Provavelmente vou ganhar o ódio de algumas pessoas com esse texto, mas é um assunto que já vem matutando em minha cabeça a algum tempo.

Ontem, na minha faculdade, teve uma espécie de “mini-festival” de curta-metragens feitos de maneira independente aqui do país. Na verdade, chegava a ser uma “competição”, pois ao final havia uma cédula para votarmos em qual achamos melhor. E eram curtas feitos no país inteiro; inclusive, uns 3 tinham o nome “FAAP” envolvido, e de outras faculdades também.

Mas eu notei um tema que norteou quase todas as obras, positiva ou negativamente:

Morte. Mais especificamente, suicídio.

Mas não chegava a ter um conceito, ou uma razão. Só tinha, e ponto final.

E baseado nessa frase acima, muita gente vai dizer que “eu que não entendi o conceito”. Pode ser verdade, pode não ser, mas não é essa a questão.

Retirantes, um dos melhores curtas apresentados, baseado na obra de Candido Portinari

Conversando com o Leonardo Bonkoski do Portal Tanaka, chegamos num consenso de que o suicídio é um recurso muito fácil para se chocar o público e dar uma falsa sensação de profundidade a obra. Muitos estudos apontam a depressão como o “problema social do século XXI”, e por se tornar cada vez mais comum, essas obras parecem querer dialogar com esse público, mas muitas vezes de uma maneira muito rasa, com muita pompa e pouco real questionamento.

E na minha opinião pessoal, curta metragem não é o melhor meio para uma narrativa tão baseada em personagens. Talvez pelo pouco tempo de tela para um desenvolvimento interessante, o que acabamos por ter muitas vezes são conceitos explorados em personagens estereotipados dentro de um problema social. Sabem os arquétipos dos filmes de terror? Como a patricinha, o nerd, o jogador de futebol americano? Aqui temos o protagonista depressivo de um lado, o “mais inteligente que os outros” mas perturbado de outro… E não há problema nenhum em apenas usá-los como arquétipos, mas acabam por ser narrativas muito voltadas a psique humana e por isso não acontece NENHUM desenvolvimento, apenas em alguns casos, suicídio. Sei que algum filme pseudo-cult deve ter vindo à sua mente agora.

Mas é bom lembrar: NÃO ESTOU GENERALIZANDO. Isso são comentários sobre uma ideia que parece permear o cinema independente no mundo, e não falando que obras assim são necessariamente ruins.

Shinji: maníaco depressivo e suicida em potencial antes de ser moda

Agora vamos abrir um pouco mais um leque; de curta metragens para “grandes filmes” (apesar de que eles não gostam de serem nomeados assim).

No Oscar desse ano, o grande vencedor do ano foi Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (entendeu agora a imagem inicial do post?). O filme sem sombra de dúvidas é ótimo, bem sarcástico e divertido, mas tem um fator que não me agrada: sua pompa exagerada.

O filme em si é cheio de críticas aos grandes blockbusters do cinema ao mesmo tempo que critica os tais “críticos profissionais de cinema”. Mas ao contrário da visão de que o filme é ácido pra todo lado, eu vejo mais como um fato de que o filme nem sabe direito o que quer criticar.

Então, certo dia, decidi procurar discussões sobre o (ótimo) final ambíguo do filme, apenas por diversão, e achei algo interessante: os roteiristas falando do filme. Até que li algo que me surpreendeu, ao final do texto, em que Nicolas Giacobone, um dos quatro roteiristas do filme, diz que “ainda está tentando entender o final do filme”.

Ok, logicamente ele falou isso brincando, afinal não vejo uma produção grandiosa (no sentindo de >ganhar Oscar<) colocando algo que nem os roteiristas sabem explicar no roteiro, mas isso me fez pensar: será que as pessoas realmente entendem o que tanto defendem?

Essa questão pode ser explorada em vários ramos da psicologia humana, desde o religioso até o político, mas vamos tentar nos manter à questão >histórias<, sentido de qualquer mídia que conte uma história.

Muitas vezes uma história tenta ser tão complexa e profunda que acaba não chegando a lugar algum. Mas, ao invés de enxergar isso, as pessoas defendem a suposta genialidade da obra, para uma questão social de que pareçam que entenderam a mensagem; e, se alguém critica, justa ou injustamente, antes mesmo de poder terminar de argumentar é taxado como alguém que “não entendeu a obra”.

O que me faz levar ao segundo tópico do post: a absorção do público.

Ao invés de me manter nesse aspecto, vou mudar um pouco o foco.

Conhecem o mangá Berserk? Se não, tento fazer uma explicação rápida do contexto da imagem logo abaixo:

Eu vi essa imagem graças ao Igor Mendonça, também do Portal Tanaka, e a ideia que darei baseada na imagem vem do que ele disse sobre.

Pra quem não entendeu, a personagem mostrada é tida como decepcionante por quem escreveu a “confissão” por ser a “única membra feminina da Mão de Deus” (conceito do mangá) e por ter um design “clichê”, sendo “bonita, nua e agindo como uma puta”.

Mas aí vão os problemas: em primeiro lugar que não é possível afirmar que ela é a única mulher na Mão de Deus, sendo que quem fez essa imagem que tá supondo isso. Mas isso é até fácil relevar, já que envolve conhecimentos do universo do mangá mais profundos. Mas quanto ao resto, ela é uma personagem que representa um dos instintos mais relevantes no mangá: o desejo. Como representante de tal e estando em uma obra que tem bastante influência de religiões pagãs, se desvencilhar da imagem de uma súcubo(demônio de lendas medievais do extremo oeste com aparência feminina que invade os sonhos dos homens a fim de ter uma relação sexual com eles para lhes roubar a energia vital) para representar exatamente o que uma súcubo representa seria um tanto quanto sem sentido. É sim um conceito socialmente imposto, mas os personagens também são conceitos.

Então vem a questão: será que esse foi um protesto justo aos ideais feministas ou foi apenas uma ideia jogada por uma pessoa que não absorveu a ideia da obra para parecer “inteligente”, “culta” ou por dentro das principais questões sociais da atualidade?

E esse não é o único exemplo. O diretor Zack Snyder, em sua adaptação para os cinemas de Watchmen, subverteu completamente a ideia apresentada na obra original, sendo até contraditório se pensar na crítica primária do quadrinho. Ou mesmo em seu último filme, Homem de Aço, que em entrevistas tinha dito que o Superman era uma “máquina de destruição”, provando conhecer bem pouco dos conceitos do personagem.

Bom, esse texto já está se alongando demais, então só quero jogar uma ideia:

Qual sua opinião sobre a mídia artística e sobre a mídia comercial?

Afinal, é muito fácil chamar um blockbuster qualquer de “lixo comercial” (abraço, Iñarritu) e venerar um filme que acha que tem algo a se entender.

Lembrando novamente que não quis generalizar gênero ou obra nenhuma aqui, são apenas algumas opiniões jogadas. E essa discussão é muito grande para apenas um post, então quem quiser, não esqueça de deixar o comentário aí embaixo =) sinta-se livre para discordar de mim, afinal, é pra isso que servem as discussões.

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2 comentários sobre “As implicações de uma “narrativa profunda” e como o público a absorve

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