[Análise] Penadinho – Vida, de Paulo Crumbim e Cristina Eiko

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“Acho que estou começando a entender o que é viver“.

Quinta-feira, 11 de junho, um dia antes do dia dos namorados. Acordo com o som da campainha. Coloco uma roupa rápido e vou ver o que é; “encomenda”, diz o entregador. Depois de colocar os cachorros para dentro, abro o portão, assino e pego minha embalagem com a versão capa dura de Penadinho – Vida, lançado em maio, de autoria do casal Paulo Crumbim e Cristina Eiko (gente finíssimas). Confesso que não conhecia o trabalho mais conhecido do casal, o Quadrinhos A2, mas comprei mais pela curiosidade com o título e para continuar a coleção do que pelo renome dos autores (afinal, nunca fiz isso).

Para quem não sabe, o selo Graphic MSP é um inovador projetado, comandado por Sidney Gusman (além de evidentemente, Maurício de Souza), que consiste em histórias dos personagens do estúdio feitas por artistas brasileiros consagrados e com um estilo diferente (tanto de publicação quanto de história) do padrão das revistas mensais, sendo sem sombra de dúvidas uma das melhores – se não a melhor – inciativas feitas no mercado mainstream de quadrinhos nacionais dos últimos anos.

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Devido a algumas obrigações minhas na quinta-feira, deixei para ler a história na sexta, dia 12, conhecido por aqui como Dia dos Namorados. E que surpresa não foi a minha ao descobrir que a história se encaixa perfeitamente com a data?

No quadrinho, Alminha vai reencarnar no amanhecer do próximo dia, e Penadinho se vê num impasse, já que nunca disse a ela sobre seus verdadeiros sentimentos. Porém, Alminha acaba desaparecendo, e cabe a Penadinho e seus amigos irem atrás da fantasminha, para que Dona Cegonha possa levá-la e para que Penadinho possa abrir seu coração (mais metaforicamente do que nunca).

Primeiro, é bom tecer alguns comentários sobre a obra. Sua levada é tão fluída e te prende tanto que você não vê as páginas passarem. Mesmo que num espaço em que não dê pra desenvolver muito bem os personagens, cada um tem uma personalidade muito forte e carrega um carisma imenso, dando inclusive no final a impressão de que o arco de cada personagem foi fechado (por mais inexistente que possa parecer). E isso tudo é reforçado pelo maravilhoso traço da obra. É como se o traço, a paleta de cores, os enquadramentos e até mesmo as onomatopeias fossem “personagens” que dão um incrível suporte a história, fazendo valer a ideia de que cada mídia tem que ser única. Afinal, de que adianta adaptar um livro para um quadrinho se não for feito com paixão, transformando o quadrinho numa obra própria? Ou ainda, um quadrinho em um filme, sem fazer uso dos recursos que só o cinema pode oferecer? Aqui, Crumbim e Eiko fazem isso: uma história em quadrinhos, com tudo o que se tem direito.

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Apesar de parecer, a história não mexe tanto com o status quo do universo do personagem (como os Astronautas, de Danilo Beyruth fazem, por exemplo), fazendo apenas uma pequena releitura de como certo personagem entrou para a turma. De resto, além dos personagens clássicos estarem muito bem representados, um ponto interessantíssimo foram as referências, como o esconde-esconde em que se conta até 666, o nome do vilão da história (pois é, Sr. Crowley), o nomes dos ajudantes deste, e até mesmo a curta aparição da Dona Morte, um dos melhores momentos da história.

Lendo o quadrinho, era impossível não fazer paralelos com a data. Primeiro que é uma jornada feito pelo amor. Apesar de, no caso, ser um amor “além”, que envolve a paixão, fica implícito que a ação dos personagens é mais pela amizade, pela preocupação. Afinal, Frank, Zé Vampir e os outros estão ali tanto por Penadinho como por Alminha. E é incrível a sutileza com que o casal de autores faz uma história de amor que ultrapassa qualquer limite de “vida” ou “morte”. Penadinho faz o que faz porque ama, mesmo sabendo que talvez não verá mais Alminha. E ele não tem medo disso. Ele sabe que o amor é uma ideia muito mais forte do que uma morte (ou, no caso, uma reencarnação) possa separar.

E não é qualquer amor. O termo não se define apenas a “pessoa do sexo oposto”. Amor é afeição, carinho, uma grande amizade, até mesmo uma ligação espiritual. Amor ao pai, à mãe, ao amigo, à amiga, aos cachorros, a Deus, ao professor, à namorada, ao namorado. À vida. Você pode não ter algum desses, pode não acreditar em “amor”, mas ele vive dentro de você. Todos já amamos, todos vamos amar.

Em um dos diálogos mais emblemáticos do quadrinho, Alminha diz que está começando a entender o que é viver, enquanto que Dona Cegonha diz à ela para ter calma, afinal “procurar compreender um dos grandes mistérios agora seria um erro”. Mas afinal, não seria esse o sentido da vida? Vivemos para amar. É o que nos mantém vivos. O problema é quando não notamos isso. Mas com um pequeno pingo de amor à vida, podemos alcançar distâncias que nunca imaginamos antes. O futuro é incerto para todos, mas com confiança naqueles que confiam em nós e vivendo um dia de cada vez, podemos alcançá-lo.

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Não imaginei que teria pego um timing tão bom para ler a história. Ao fechar o quadrinho, várias ideias do que escrever aqui me vieram à mente; várias comparações com o que eu, aqueles que estão à minha volta e até mesmo você está vivendo. Mas quem sabe se lendo você não descobre muito mais coisas do que eu? Coisas sobre a história, coisas sobre os personagens, coisas sobre a vida.

Infelizmente, nem tudo são flores. Achei a resolução final um tanto quanto… “Fácil” demais (ou talvez eu não tenha entendido plenamente), apesar de, por mais paradoxal que isso pareça, ter gerado um dos melhores diálogos da história inteira.

Apesar de toda essa reflexão que fiz, a história ainda é muito leve e pode ser lida por qualquer um, não precisa necessariamente achar 1001 referências e “comparações com a vida”, acima de tudo é uma ótima história, com um humor refinadíssimo e sendo uma aventura incrível.

Nota: 9.5/10.

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2 comentários sobre “[Análise] Penadinho – Vida, de Paulo Crumbim e Cristina Eiko

    • Cara, todos os elementos que citei no texto foram bem sutis, a história não obriga que o leitor “reflita” sobre nada. Como apenas uma história, ainda é muito boa, apesar de, como eu disse no texto, a resolução final não ter me agradado tanto.
      Mas enfim, vale a pena ler xD

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